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Márcia Schenatto

Não sei o que fazer da vida

Talvez a vida esteja funcionando. O trabalho anda, as contas fecham, as pessoas estão lá. E mesmo assim falta alguma coisa que você não sabe nomear.

Ou talvez nada esteja funcionando, e a pergunta seja mais direta: e agora?

Antes de responder o que fazer, entender o que aconteceu

A pergunta "o que eu faço da minha vida" quase nunca se responde de primeira. Antes dela vem outra: o que fez você chegar à conclusão de que não sabe?

As respostas costumam ser três, e são diferentes entre si.

Você está diante de uma mudança e perdeu as referências que tinha. O que servia de bússola até aqui — um cargo, uma relação, uma fase — deixou de servir, e ainda não apareceu outra coisa no lugar.

Você construiu uma vida a partir da expectativa dos outros. Deu certo, e um dia você percebeu que não sabe mais o que quer para si. É diferente de não ter conseguido: você conseguiu, e não era sua.

Existe uma sensação de vazio. A vida está de pé e o que antes dava direção parou de fazer sentido. É a que menos se explica de fora.

Não é procurar o propósito da vida inteira

É a pergunta errada, e ela paralisa. Ninguém decide os próximos trinta anos numa tarde.

O que dá para fazer é olhar para a vida que existe hoje. O que ainda faz sentido. O que deixou de fazer. O que desperta interesse, mesmo pouco. Do que você sente falta. São pistas do que faz sentido agora — e uma pista basta para o próximo passo, que é tudo que um passo precisa.

Quase nunca é a profissão

Muita gente chega dizendo que precisa descobrir uma nova profissão.

Quando começamos a olhar junto para o que já existe, quase sempre o trabalho não é o problema. O trabalho funciona. O que se perdeu no caminho foi a sensação de escolha.

Durante anos, essa pessoa foi fazendo o que era seguro. O que era esperado dela. O que parecia lógico na hora. Até chegar num ponto em que não dá mais para separar o que ela quer do que ela aprendeu a querer.

Aí a pergunta muda. Não é mais "que profissão eu escolho". É outra: o que, nessa vida que eu construí, ainda é meu?

Nem sempre a resposta é mudar tudo. Às vezes é retomar uma parte da vida que ficou para trás. Rever uma decisão que já não serve. Ou reconhecer que uma escolha antiga cumpriu o que tinha que cumprir.

É isso que um olhar organizado permite enxergar. Antes de decidir o que vem depois, entender o que, do que já existe, ainda faz sentido continuar carregando.

É o mesmo olhar de organização da vida e de autoconhecimento.

Onde este trabalho não alcança

Faço uma distinção importante aqui.

Nem toda falta de direção é uma questão de organização. Existe sofrimento que é intenso demais, ou que dura tempo demais. Existe o momento em que a pessoa percebe que não está conseguindo funcionar como antes. Isso não se resolve colocando a vida em ordem — e eu não trato como se resolvesse.

Quando é esse o caso, o caminho é procurar um profissional de saúde habilitado para avaliar o que está acontecendo.

Meu trabalho tem um limite claro: organizar pensamentos, padrões e decisões quando é isso que está sendo trazido. Ele não substitui um cuidado de saúde quando esse cuidado é necessário.

Por onde começar

Uma hora, online, para olhar o que está acontecendo e sair com uma leitura escrita: o que está em jogo, o que se repete e qual seria o primeiro movimento. Se depois disso fizer sentido seguir, existe o acompanhamento.

Você não precisa descobrir o resto da sua vida para começar a decidir o que faz sentido para a próxima etapa.

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